João Valter Ferreira Filho
Ex-coord. Ministério das Artes RCC Brasil
O ambiente era extremamente hostil lá fora: homens feridos disputavam cada pouquinho de comida como se fosse o último, os abutres sobrevoavam o acampamento durante o dia e, à noite, era a vez das hienas e das feras do deserto uivarem prevendo um banquete que, com certeza, não deveria estar muito longe. E para completar, o que de pior poderia acontecer a um exército em batalha: um clima de derrota e desilusão tomava o coração de cada um dos guerreiros do Deus de lsrael. No entanto o jovem Davi não precisava se preocupar muito com isso, afinal de contas ele era o "músico do rei", tinha acesso quase irrestrito à tenda de Saul e, de fato, lá dentro o Senhor agira muitas vezes através dos cânticos que brotavam de sua boca e das notas que afloravam de seu knor. A guarda real nem pedia mais identificação, era só chegar e entrar, e naquelas almofadas, ao sabor do vinho e das iguarias do rei, nem parecia que lá fora havia uma guerra, era só cantar e ver a glória de Deus libertar Saul e seus generais do espírito maligno.
O capítulo 16 do primeiro livro de Samuel termina justamente dizendo que Davi era um instrumento de Deus na tenda do rei. Não há dúvidas de que ele era um rapaz privilegiado: estava fazendo sua parte, e isso era bom, entretanto havia algo muito maior no sonho de Deus.
O capítulo 17 já inicia mostrando que nosso amigo, estando um dia lá fora, sente-se pessoalmente ofendido com a humilhação de seu povo perante Golias. Todo mundo já conhece o resto da história: Davi abdica do conforto da tenda de Saul e literalmente vai à luta.
lnicio assim nossa reflexão por quê algo na imensa produção artística, especialmente musical, que hoje presenciamos dentro da espiritualidade da RCC me deixa, confesso, um tanto inquieto: muitas vezes a impressão que tenho ao ver nossos ministérios em ação (em encontros, shows, cds, etc.) é que muitos de nós ainda não conseguimos passar do capítulo 16 para o 17 do livro de Samuel.
Trocando em miúdos: tocar para quem já é da Renovação, desculpem-me pelo lembrete doloroso, não é coisa muito difícil. Cantar louvores com quem já é acostumado a louvar, todos hão de convir comigo, não é algo muito complicado, não. A verdade é que, em certa parte de nosso caminho, chegamos às vezes a um ponto em que nosso serviço começa a ser tão confortável quanto as almofadas da tenda de Saul. Veja que não estou dizendo que é errado fazer o que já fazemos (afinal de contas a música de Davi era mesmo necessária para que Deus agisse no coração do rei), mas acredito sinceramente que há algo bem maior reservado para nós mais à frente. Sendo ainda mais claro: nós, artistas da Renovação Carismática, não podemos correr o risco de esquecer que uma guerra está sendo travada e é nela que estamos, a ela fomos chama-dos.
Em termos práticos, posso comentar dois aspectos que se me mostram importantíssimos nesse tempo tão novo que vivemos na RCC estes dias; e a partir desses aspectos, faço dois convites a todos os ministérios de música, dança, teatro e mesmo a todas as lideranças da RCC do Brasil:
O primeiro aspecto diz respeito a uma observação que muitos irmãos pelo Brasil têm feito e que tornou-se mesmo uma exortação quando da palestra de nossa querida irmã Marizete (Secretária Marta Nacional) durante nosso XXI Congresso Nacional da RCC, na manhã de 11 de julho último. Vamos a ele:
Temos muitos shows realmente bons de ministérios, bandas e cantores solo que, de uma maneira ou de outra, se identificam com a espiritualidade carismática, ainda que nem todos sejam formalmente de nosso movimento. Isso é muito bom. No entanto muitos desses shows estão cada vez mais parecidos com "pescaria em aquário", uma vez que acabam tendo como público alvo apenas as pessoas que já conhecem a música daquele determinado artista. Ademais, estruturas caras de som, luz, local, passagens, etc. têm aumentado e muito as despesas de nossos eventos, pratica-mente forçando os organizadores a cobrar entrada, o que inevitavelmente impede muitas pessoas de terem acesso à evangelização daquele determinado show.
Vejam que não estou dizendo que são errados os shows que já fazemos, mas a verdade é que não podemos ter aí nossa principal frente de evangelização através das artes.
Neste exato momento, milhares de pessoas (às vezes colegas nossos de trabalho, de estudo; às vezes familiares nossos...) estão desesperadas em seus corações, lançando-se às drogas, tentando acabar com a própria vida ou simplesmente dedicando toda a sua existência a seguir exata-mente o que diz a mídia massificante de nosso país. Perdoem-me por estar dizendo, mas esses irmãos não vão sair de suas casas e pagar entrada para ser evangelizados, não. Nossa música, nossa dança, nossa arte, enfim, precisa estar onde o povo está: nas praças, nas praias, nos shoppings,... Na frente de batalha.
Agora vem o primeiro convite:
Vamos levar nossa arte católica carismática de volta às ruas, às esquinas, às praças. Proponho que nos empenhemos em revitalizar não somente grandes projetos como a Virada Radical ou os Evangelizashows, mas que também pensemos em novos meios, mais simples, menos dispêndiosos, de ir com nossa arte até onde o povo está.
Estou falando de um violãozinho e uma pessoa cantando o amor de Deus em cada esquina dos centros comerciais de nossas cidades, de dançarinos fazendo uma performance santa nos coretos de nossas praças mais movimentadas, de grupos de teatro encenando peças evangelizadoras nos horários de recreio das escolas públicas de todo o país, de quadros e esculturas inspirados na Palavra de Deus expostos nas galerias de nossos maiores shopping centers, de rosários sendo cantados, dramatizados e rezados nas rodoviárias, de ministérios visitando penitenciárias, hospi-tais, casas de saúde... Eu gostaria de dizer a todos que Deus espera muito mais ousadia de nós.
Já sei, já sei: "Mas, João Valter, mas e o som e a luz; e as despesas, como as pagaremos?"
Em primeiro lugar, nem sempre precisaremos dessas superestruturas, ou não conhecemos aquela turma de artistas peruanos que, com suas flautas pan e uma caixa de som, têm andado pelo mundo inteiro tocando em todo tipo de lugar? Se eles levam sua mensagem assim, porquê não podemos nós levar a nossa também? E quem disse que o show só será bom se vier um artista de fora? Não é o mesmo Espírito que sopra em todos nós? Então, por quê não colocar ministérios de nossa própria cidade para animar a noite?
Em segundo lugar, quando precisarmos de grandes sons e de super-iluminações (muitas vezes isso será mesmo necessário para que atinjamos nossos objetivos), podemos pensar em outras maneiras de angariar os recursos para o pagamento das despesas, como patrocínios ou campanhas, por exemplo. Vejam que em alguns lugares do Brasil já se faz assim as coisas.
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