João Valter Ferreira Filho
Ex-coord. Ministério das Artes RCC Brasil
(Quando este artigo foi publicado o Ministério de Artes ainda era tratado como secretaria)
Ainda no ano passado iniciei na Revista RenovAção algumas reflexões sobre aquilo que Deus e o povo esperam encontrar quando se fala sobre Arte Carismática.
Este mês gostaria de ser um pouco mais específico para aqueles que exercem a mais "funcional" das Artes na Igreja de nossos tempos: a Música.
Só na RCC calcula-se que tenhamos uns 15.000 (você leu certo: quinze mil) ministérios de música ligados à Secretaria Davi em suas diversas instâncias (Cidades, Microrregiões, Foranias, Vicariatos, Dioceses, Estados etc). Isso sem falar nas outras tantas equipes de música e bandas que não são oficialmente da RCC, mas que nos ajudam, nos ensinam e até bebem de nossas fontes!
Por isso, enquanto Secretário Nacional, deixem-me falar francamente sobre um aspecto que é meio "espinhoso" para nós, mas que vejo como algo urgente: o conteúdo das letras de nossas canções.
Estão prontos? Vamos lá!
O que tenho notado no que diz respeito aos textos de nossa música é que muitas vezes acabamos simplesmente colocando novas melodias sobre as mesmas poesias de sempre. Em nome da "simplicidade" e da "unção", acabamos caindo no erro de barrar a ação do Espírito Santo não somente sobre a nossa criatividade, mas também sobre nosso raciocínio e nossa compreensão e interpretação do mundo. Acabamos muitas vezes tendo "letrinhas light", sem conteúdo catequético, humano, sem aprofundamento teológico e – preparem as costas para mais "pancada" – muitas vezes desprezando as realidades sociais que nos cercam.
Já está na hora de termos um pouco mais de consciência a respeito daquilo que Deus está colocando em nossas mãos... Nossa arte tem um alcance simplesmente inimaginável, é uma profecia que Ele confia a nós. Portanto, é necessário que conheçamos um pouco mais daquilo que o próprio Deus espera conseguir através de nossas músicas. Nossa voz deve ser o eco da vontade do Pai para o povo, nossas melodias devem refletir as melodias que habitam Seu próprio Coração! Vejam que isso tudo é muito grande, é algo enorme mesmo! E como daremos conta de tão extraordinária missão se não tivermos o coração aberto àquilo que Ele tem falado à Igreja?
A Renovação Carismática precisa de mais canções que expressem o pensamento da Igreja, que realcem o caráter litúrgico de nossos momentos, que reforcem as nossas convicções sociais. Deixem-me ser mais claro: os compositores ligados à Renovação Carismática precisam conhecer um pouco mais sobre teologia, catequese, liturgia e doutrina social da Igreja!
Isso não quer dizer complicar as coisas, tornar nosso repertório inacessível; muito pelo contrário, isso quer dizer se aprofundar mais naquilo que é próprio de nossa Igreja a fim de que, paulatinamente, possamos ir a cada dia cantando com mais propriedade a fé que abraçamos.
Que tal conhecer as expectativas do Papa João Paulo II em relação a nós, artistas católicos? Pois está tudo escrito lá na Carta aos Artistas, que já vai fazer quatro anos de idade! Que tal ler um pouco mais sobre adoração antes de compor uma música com esse tema? Pois temos hoje inúmeros livros publicados nessa área! Que tal preparar um repertório liturgicamente impecável para nossas celebrações? Pois basta conhecer e seguir as orientações litúrgicas do setor de música da CNBB! Que tal tentar expressar nosso desejo de ver um mundo mais feliz em Cristo? Pois a Doutrina Social da Igreja nos dá pistas para que consigamos desde já começar a construir esse Reino de Amor! Tudo isso podemos fazer "carismaticamente", sem perder uma gota sequer da identidade de nosso movimento. Basta somente que tenhamos uma certa dose de coragem, que nos desinstalemos um pouquinho e que tenhamos disposição para mudar algumas coisas.
Meus irmãos, gostaria que percebessem que não estou querendo "brigar" ou "passar carão" em ninguém. Eu apenas partilho sobre coisas que não podemos deixar de enxergar. Também não estou dizendo que tudo o que estamos fazendo está errado... Só quero fazê-los ver que temos ainda largos horizontes à nossa frente.
O Projeto Reavivando a Chama nos provoca (às vezes até doloridamente) a amadurecer um tanto mais nossas posturas. Quem tem coragem de levantar das almofadas da tenda de Saul também nesse aspecto? Quem terá ousadia o suficiente para mudar algumas coisas em sua prática musical?
A Secretaria Davi começa, aos poucos, a dar passos concretos nesse sentido. Nossos contatos com o Setor de Música da CNBB na pessoa de seu coordenador, Frei Joaquim Fonseca, e também com outros liturgistas, compositores, estudiosos etc têm nos mostrado algumas luzes e começamos a perceber um caminho muito bonito que se descortina logo adiante. Estamos começando a preparar material de formação sobre essas coisas para nossos músicos, nossos roteiristas, nossos coreógrafos... E fico mesmo empolgado ao imaginar quantas coisas lindas hão de surgir dessas sementinhas. É que nosso Deus costuma iniciar grandes revoluções a partir de pequenas inquie-tações... Isso faz parte de Sua divina pedagogia!
Fica o convite, a convocação: desde já, comecemos a ler mais, a estudar mais. Conheçamos também, sem medo ou preconceito, o trabalho de outros compositores católicos ligados a outros movimentos. Escutemos um pouco mais a obra de Zé Vicente, Padre João Carlos, Padre Zezinho, D. Pedro Brito, do pessoal do Focolare, a música extraordinária da Comunidade Taizé... Não estou dizendo para fazer as coisas do mesmo jeito, estou dizendo para escutar, o que é que custa?
Deus chama a gente pra um momento novo de caminhar junto com seu povo.
É hora de transformar porquê não dá mais, sozinho isolado ninguém é capaz!